Hoje nasceu uma estrela…

Caros amigos, habituais leitores deste singelo blog, o tema de hoje é bem mais tristonho do que o habitual.

Posso até dizer que é, sem qualquer dúvida, a entrada mais triste que aqui fiz desde que este espaço foi criado.

Para quem só gosta de ler parvoíces, chalaças e quejandos deixo aqui um aviso sentido: hoje não há nada disso.

Se ainda estão a ler, e pelo respeito que esta situação me merece, e vos deve merecer a todos, passo a contar-vos uma história de amor, dedicação, coragem e fé, muita fé.

Não espero que aceitem de mão beijada todas as informações abaixo, mas são tão verdadeiras quanto eu estar aqui hoje – valendo isso o que vale.

Comecemos então.

Para quem não sabe, eu divorciei-me no final de 2006, depois de 2 anos e meio de um casamento com altos e baixos (mais baixos do que altos, sobretudo graças a mim, e admito-o sem qualquer vergonha), com uma mulher extraordinária, que me ensinou muita coisa e com quem infelizmente aprendi pouco – a admiração permanece.

Mas essa mulher, que vamos aqui deixar por identificar para guarda da privacidade de cada um, não era tão singular por acaso: a sua origem numa família ímpar, onde todos expressam a sua opinião livremente, e o apoio das decisões individuais é realmente sentida pelo colectivo, onde o amor incondicional não é sequer uma palavra de ordem (palavras, para os preciosistas) mas sim a mais natural das ocorrências, onde ninguem impõe a sua vontade e em vez disso ela é simplesmente aceite e respeitada, e esta sua origem é a chave da sua natureza.

Nessa família, que para muitos parecerá de novela ou de ficção-científica, que tem os seus problemas como todas, mas que os tem sempre superado, a força da sua fé tem-lhes permitido ultrapassar barreiras intransponíveis e obstáculos incontornáveis.

Esse núcleo, se se pode chamar núcleo a esta massa coesa (sem neutrões, somente protões – que é só energia positiva naquela casa), é constituído pelo pai, o Sr. Arnaldo, pela mãe, a D. Clarisse, a minha ex, a irmã mais velha, a Sandra e o irmão mais novo, o Carlos.

E muito brevemente um novo elemento, uma nova alma, pelo menos todos o esperávamos.

A Sandra aguardava um menino, o Alexandre, para Fevereiro (Março o mais tardar) – e por mais banal que isso seja nos dias de hoje, naquela casa seria o iniciar de um novo ciclo. De esperança, de carinho e de acolhimento. De alegria e renascimento.

Porque ainda há pouco tempo (já passou um ano, dois?) partiu o avô materno da minha ex, e agora vinha um novo espírito iluminar aquelas paredes – era um pouco como o regresso esperado, uma renovação espiritual do núcleo familiar.

Mas Ele assim não quis.

Sem querer parecer lamechas, nem negar as razões práticas e científicas que inviabilizam tantas gravidezes de serem levadas a termo, sem entrar em fundamentalismos ou divinizações fáceis, sinto que foi o que aconteceu.

Hoje, da parte da tarde, a Sandra deixou de sentir o menino e após consultar o Hospital de Aveiro o diagnóstico foi o pior possível: não detectavam batimentos cardíacos. Uma ecografia confirmou este triste estado de coisas e uma esperança de 8 meses morreu.

Por si só, esta insustentável dor já seria razão de um desconsolo para o qual não existem palavras. Mas há mais, muito mais.

No início da gravidez, tinha sido efectuada uma amniocentese (para quem esteja a ler e não saiba, é um procedimento invasivo de diagnóstico pré-natal, onde uma agulha enorme é enfiada na barriga da mãe de forma a retirar líquido amniótico, e facilitar a detecção atempada de eventuais mal-formações e doenças genéticas).

Este exame tinha revelado uma anomalia bastante grave, uma Trissomia, na sua variante 13. Muitos de nós só ouvimos falar na variante 21, o vulgo Mongolismo ou Sindrome de Down. Mas as variantes 18 e 13 são bem mais graves. Sobretudo a 13.

A verdade é que, segundo a maioria dos especialistas consultados por ela, o mais correcto seria ter procedido de imediato à interrupção voluntária da gravidez.

"Por razões psicológicas para si, se ele nascer será horrivelmente deformado, e por razões físicas para o feto, que só terá sofrimento no pouco tempo de vida que terá – não mais de 1 ano!" disseram-lhe.

Mas a Sandra é feita da mesma cepa que a minha ex.

Ninguem lhe diz o que fazer. Ninguem manda nela. E ninguem lhe ia tirar uma vida que ela tinha ajudado a criar.

Assim, armou-se de fé, amor e esperança.

Procurou outras opiniões, foi à net, esse refúgio de conhecimentos milenares, soube acreditar nos erros da medicina.

E a pouco e pouco a própria ciência começou a dar-lhe razão.

O risco de aborto espontâneo era tremendamente alto nos primeiros meses – não aconteceu.

As malformações ósseas seriam facilmente visíveis a partir do 3º mês e abosultamente aberrantes a partir do 7º – absolutamente nada a registar em 4 ecos efectuadas.

Os médicos estavam abismados. Poderia a amniocentese estar errada? E se estivesse o que implicaria esse erro? Teriam já sido terminadas outras gestações baseando-se nestas informações? E se sim, o que significaria isto para os tradicionais meios de diagnóstico e a fiabilidade de um exame que se diz definitivo?

A pouco e pouco alguns especialistas começaram a procurar anomalias nas ecografias. Quaisquer umas. Por mais pequenas que fossem. Algo que os apoiasse. Que os reconfortasse e os fizesse dormir descansados à noite. Mas apenas detectaram situações que numa gravidez dita normal seriam dignas de nota de rodapé, na melhor das hipóteses.

A cada novo exame encorajavam-na a terminar a gravidez – cada vez mais nervosos, mais desejosos de ter razão. Mas teria sido mais fácil convencer o Sol a nascer a Oeste.

Ninguem com uma Trissomia 13 diagnosticada num feto tinha levado uma gravidez a termo voluntariamente.

Os médicos estavam atónitos. Era ilógico. Era irracional. Era imoral. Mas pior que isso, era um imprevisto. Um problema para o qual não havia plano de contingência – erro clínico num meio de diagnóstico 100% fiável.

A esperança de normalidade cresceu durante estes 8 meses, lenta mas inexoravelmente. Enraizou-se no peito de todo aquele núcleo e no meu tambem.

Admito que de início questionei a decisão da Sandra, mas quanto mais tempo passou mais a admirei e acreditei num final feliz – ultimamente já acreditava que teria em breve um "sobrinho" a quem poderia mostrar o maravilhoso mundo dos jogos e dos filmes.

E isto traz-nos ao dia de hoje, lamentavelmente.

Apesar de estar a criar dentro dela um menino aparentemente saudável, por mais que a medicina a tivesse tentado convencer do contrário, o Alexandre não chegou a ver o rosto da mulher que fez tudo o que muito poucas teriam feito para o poder olhar nos olhos, nem que fosse por um segundo apenas.

Deus assim não quis.

Mas o espírito dele regressou para um lugar melhor.

Onde vai amadurecer mais um pouco, limpo do sofrimento por que já passou nestes 8 meses, e de onde vai poder voltar quando outra mãe com um coração do tamanho do mundo o quiser – a Sandra merece sê-la, mas a decisão não é dela.

E desta vez ele vai poder ficar, certamente.

Esta noite há mais uma estrelinha no céu… Nunca te esqueceremos, Xande.

 

    
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6 respostas a Hoje nasceu uma estrela…

  1. Fiore diz:

    Não é meu hábito aparecer, muito menos escrever por aqui. Mas hoje soube, pelo meu amigo Tito, o que havia/ se estava a passar. Também eu fiz uma amniocentese, também eu estive grávida ….. passei por isso, felizmente o final foi diferente. Escrevo para ti, Sandra, deves ser uma pessoa espectacular, como existem poucas. Lutar não é fácil, lutar contra tudo o que te diziam os especialistas não deve ser mesmo nada fácil. És uma MULHER CORAGEM. Tento imaginar o que podes estar a sentir, mas também sei que a tua Força, essa que te fez lutar e avançar, vai ajudar-te a ultrapassar e a concretizares aquilo que desejas. Eu sei, eu sinto que sim…. Força MULHER CORAGEM. Aceita um beijinho carinhoso desta desconhecida. Fiore 

  2. susana diz:

    Os meus sentimentos á Sandra,de facto deve ser ,muito lutadora sim.E´um momento dificil quando dizem que um bebé tem alguma deficiência grave e que se deve interromper a gravidez,porque é uma vida que está a nascer dentro da pessoa e que quando tudo dá certo mesmo com deficiências deve-se amar e dar sempre carinho a esses bebés,mas por outro lado infelizmente por vezes a melhor solução é deixar o bebé partir que depois o ver sofrer muito pelos vistos foi o que Deus não quis apesar de custar muito,agora ele está no paraiso,é um anjinho lá no céu,mas está sempre a olhar cá para baixo de certeza que sim amiguinho e já não está a sofrer.
    Desejo que a Sandra tenha muita força como parece ter para ultrapassar essa dor,é sempre um momento dificil.
    Um beijinho para ela ,e muitos para ti tb amiguinho Tito

  3. Teresa diz:

    Obrigada Tito …
    Temos no céu um anjinho… o nosso Alexandrinho!!
    A minha irmã cumpriu a sua missão.Tenho orgulho dela.
    O nosso menino foi fazer a viagem à nossa frente… aquele maroto.
    "A ti …meu pequenino… este amor que já te tinha, vou continuar a ter…é teu para sempre…Não te esqueças de puxar um bocadinho de algodão branquinho das nuvens para te tapares, no meio da nuvem mais fofinha. Com este amor sem fim! (da madrinha orgulhosa por teres sido o meu pequeno guerreiro)"

  4. Fernando diz:

    Caro Amigo, se me permite tratá-lo como tal, realmente até eu que na maioria das vezes sinto-me uma pessoa insensível fiquei sensibilizado com o texto. Do pouco tempo de convívio que tivemos por força do nosso amigo Jorge não fazia ideía desse teu lado mais humano. É com gosto que vejo que por mais maluco que possas parecer tens os pés assentes na Terra. Apesar das Vossas diferenças soubeste ser um Amigo nessa hora. Parabéns, até uma próxima. Abraços. 

  5. gisele diz:

    ola …sei bem oque vc passou,pois estou passando a mesma situaçao,a minha gestaçao ate umas semanas atras era totalmente normal estou de oito meses agora e com sete descobri que meu bebe tem a trissomia do 13,nossa que sensaçao inexplicavel,tive vontade de morrer de sumir pra sempre,so quem passou pra saber oque e,fiquei sem chao,e uma menina e vai se chamar maria vitoria minha pequenina "VI",choro todos os minutos todos os segundos pois sinto ela mexer normalmente e fico tao feliz e a esperança cresce dentro de mim ,minha medica ja me tirou todas as esperanças apos o nascimento…poderia ficar escrevenfo aqui por horas e horas mas vc sabe oque estou sentindo …ela pode nascer a qualquer momento e tera poucas horas de vida, e espero que se ela partir q fique do lado dessa "estrelinha" que e o alexandre,tenho uma filha de 4 anos e eu disse pra ela que a maria vitoria vai virar uma estrelinha igual ao alexandre…bjos e muita fe e esperança.

  6. Gisela diz:

    Olá! Meu mais querido e recente amigo. Sabia que tu tinhas realmente algo de especial para eu ter sentido tanta empatia em relação a ti só de ter lido o teu perfil naquele site que não interessa agora mencionar. Ès realmente um ser humano extremamente sensivel e que descreve muito bem os sentimentos e agruras pelas quais os outros (e talvez tu próprio) passaram. Só alguém com o coração do tamanho do "mundo" consegue descrever de uma forma tão vivida, real e sofrida tal desventura. Passo a demonstrar a minha total admiração pela tua cunhada, pela sua coragem e por essa imensa capacidade que possui de amar outro ser sem esperar nada em troca, pensando apenas no seu bem estar (dele), sem se importar com o banal (aspecto fisico e inteligência). É realmente uma mulher de armas e digna de respeito e admiração. Quanto a ti, reforço cada vez mais a minha opinião do belo ser humano que és. Tens com certeza os teus defeitos, todos nós temos, ninguém é perfeito. Nem o próprio Criador! Mas não tens receio de demonstrar os teus sentimentos nem dos expressar por palavras, nem de elogiar, louvar e engrandecer as atitudes altruistas dos outros. Para ti meu amigo um abraço forte e um grande beijo e continua assim a surpreender-me cada vez mais. Quanto á estrelinha que nos brinda com o seu brilho no céu, todas as noites, já sei qual o seu nome Como tal sp que olhar para o céu a partir de agora, e porque um amigo especial me o disse, vou sempre mandar-lhe um beijinho muito especial e inclui-lo nas minhas preces e orações. "Um Beijinho muito especial Alexandre e ilumina o caminho de todos aqueles que te são queridos e que te amaram mesmo sem te ter conhecido ou sequer dado um abraço!" Para ti meu queridissimo amigo um até breve.

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